Revista Literária CNSA

Um olhar sobre da segunda metade da literatura do século XIX do alunos do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora

Machado de Assis

Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839. Era filho de Francisco José de Assis, um mulato filho de um escravo alforriado, e de Maria Leopoldina Machado de Assis, uma branca portuguesa. Ele viveu os primeiros anos de sua vida no Morro do Livramento, perto da zona portuária do Rio de Janeiro. Embora seus pais fossem pobres, eram alfabetizados (uma raridade naquele tempo) e foram os responsáveis pelo aprendizado das primeiras letras de Machadinho, como era chamado. Teve uma irmã, Maria, que logo morreu de sarampo em 1845. A mãe morreu tuberculosa antes mesmo de o menino completar 10 anos. Mais tarde, com 15 anos, seu pai casou-se de novo com Maria Inês da Silva, uma mulata doceira. Ele mesmo teria vendido doces para ajudar sua madrasta. Em 1851, seu pai faleceu. Machadinho também tinha saúde muito frágil, era epilético e gago, ainda por cima.

O Rio de Janeiro passou por epidemias sérias de febre amarela e cólera entre 1851 e 1853. Não havia sistema de saneamento na cidade, a maior parte das ruas eram estreitas, a sujeira era grande e as doenças eram constantes e a expectativa média de vida era de 34 anos, obviamente, para quem sobrevivesse à infância, pois o índice de mortalidade infantil era altíssimo. Os sistemas de comunicação e transporte eram incipientes, embora a vinda da Família Real, em 1808, já tivesse melhorado muito a cidade que virou corte. As famílias ricas moravam em chácaras, que eram povoadas por empregados, agregados e escravos. E nessa época, por volta de 1849 (de acordo com o censo realizado por Haddock Lobo), na corte havia “a maior concentração urbana de escravos existentes no mundo desde o final do Império Romano: 110 mil escravos para 266 mil habitantes”, como conta o historiador Luiz Felipe de Alencastro. Esse era o mundo que Machadinho via em sua infância e adolescência.

Sabemos muito pouco sobre sua infância e o início de sua juventude. Há muitas lendas e especulações que só aumentam o mistério em torno dele. Como ele teria estudado, lido tantos livros e aprendido línguas no meio de tantas dificuldades? Dizem que foi a madrasta quem o matriculou num colégio onde viu poucas aulas. Outros dizem que ele não se dava bem com a madrasta e que teria aprendido tudo sozinho mesmo. Contam que a dona da chácara em que seus pais eram agregados teria apresentado sua biblioteca ao menino. Há também a história da dona de uma padaria que teria lhe ensinado a língua francesa. O que ocorreu de fato, ninguém sabe.

O certo mesmo é que Machado foi um autodidata que trilhou seu próprio caminho, com a ajuda de bons amigos e das boas relações que foi tendo pela vida. Aos 16 anos, publicou seu primeiro trabalho literário, o poema “Ela”, na revista Marmota Fluminense, de Francisco de Paula Brito.

Aos poucos, trabalhando como revisor e tradutor em redações de jornais, ele foi publicando seus textos e formando seu círculo de amigos, como Joaquim Manoel de Macedo, Manoel Antônio de Almeida, José de Alencar, Gonçalves Dias, entre outros. É certo que todas essas pessoas apoiavam e sentiam verdadeira admiração por esse rapaz de origem modesta, que assombrosamente havia adquirido tanta cultura. Dessa forma, a sua juventude não foi “excluída”, pois mesmo sem ter uma vida de luxos, já vivia confortavelmente e freqüentava teatros, bailes, grupos literários, cafés e bons restaurantes com seus amigos. Era boêmio e namorador, como qualquer rapaz de sua idade. Aos 29 anos já era considerado uma “autoridade literária”, pois tinha alcançado reputação como poeta e cronista.

E, de repente, veio Carolina… A moça considerada solteirona (pois já estava com mais de 30 anos) foi apresentada por seu irmão, o poeta Faustino Xavier de Novaes, ao amigo Machado. A cultura e inteligência desta mulher incomum para a época impressionaram Machado desde o início. Dali em diante, ele abandonou os amores boêmios e fez dela a musa e companheira de uma vida inteira. Casaram-se em 1869, apesar da resistência da família de Carolina por Machado ser um mulato. Nessa época, ele também começou a trabalhar como servidor público na Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, onde ficou até o final da vida. Isso garantiu estabilidade econômica e deixou-o confortável para escrever, embora não tivesse ficado rico. Produziu romances e contos memoráveis. Reuniu em torno de si os maiores intelectuais de seu tempo; tanto que, em 1897, fundou a Academia Brasileira de Letras. Chegou à idade madura como um homem de letras bem sucedido, com uma vida relativamente confortável e pacata, além de feliz em seu casamento (porém sem filhos), que duraria 35 anos, até a morte de Carolina em 1904. Consagrado em vida, Machado levou uma multidão ao seu enterro e o Rio de Janeiro o reverenciou em luto oficial.

Daquela madrugada de 1908 já se vão 100 anos. Fechamos o livro de sua vida e abrimos o do seu legado. Brás Cubas, Quincas Borba, Capitu, Bentinho, “Ao vencedor, as batatas!”, “olhos de ressaca”, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Não há quem não tenha, ao menos, ouvido falar sobre essas personagens e essas expressões. Meu caro, você já leu a obra de Machado? Só na escola? Ah, sim… junto com outros “clássicos” da literatura… Acha um pouco difícil? Talvez para os dias de hoje, seu texto pode parecer distante de como as pessoas escrevem e falam. Mas só parece… Ele escrevia para ser popular e não para ser difícil.

Desde o seu primeiro livro de poesias Crisálidas, de 1861, até o romance Memorial de Aires, de 1908 (fora as publicações em jornal), Machado foi cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta. Ele era chamado de mestre, mesmo por seus contemporâneos (entre eles, escritores e pensadores também importantes), pois seu texto era considerado elegante e estruturado de forma a obter belos efeitos; além disso conseguia imprimir um jeito coloquial e brasileiro de escrever. Seus quatro primeiros romances foram, mais ou menos, feitos aos moldes do estilo da época (o Romantismo). Em 1881, veio o grande divisor de águas da sua carreira e uma revolução na literatura brasileira: Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ninguém antes, no Brasil, havia escrito desse jeito. O narrador era um defunto que contava a sua própria história, mas não de forma linear pois havia “idas e vindas” no texto. Havia um humor irônico (que virou marca machadiana) que revelava uma dimensão própria da solidão humana, através da história de Brás Cubas, e uma visão pessimista da História e da Natureza. Depois dele, veio Dom Casmurro e a mais famosa história de adultério da literatura brasileira. Sua obra tinha então uma enorme carga de ironia e mergulhava fundo na psicologia e moral das personagens; sempre revelando a hipocrisia social e as oscilações éticas do ser humano.

Mas existe algo especial e mágico em Machado, o que só um gênio pode fazer. Ou só um “bruxo” (como mais tarde, o poeta Drummond o apelidou). Cada vez que lemos a sua obra, encontramos elementos e surpresas diferentes, que ele “escondia de propósito”. Por isso, o estudo de sua obra tem movimentado o Brasil e o mundo todo. Ao longo desses anos, Machado foi alvo de muitas interpretações e de críticas também (o elogio, como se vê, nunca foi uma unanimidade). Nos anos de 1920 e 30, a geração modernista o chamava de “colonizado”, por seu texto soar muito universal (leia-se “europeizado”) e não focar o Brasil brasileiro. No centenário de seu nascimento (em 1939, no auge do getulismo) virou o “milagre mestiço”, o símbolo do Brasil, o “self-made man”. Nos anos de 1940 e 50, o que ganhou destaque foram os seus esquemas ficcionais (destacados por Antonio Cândido). A partir dos anos de 1960, com a ajuda de pesquisadores estrangeiros como Jean-Michel Massa, Helen Caldwell, entre outros, percebeu-se um Machado crítico social, sobretudo da classe dominante brasileira, que ele viu de muito perto.

Machado, como Capitu, tinha um olhar oblíquo sobre tudo e não precisava ser explícito para ser crítico. Enquanto muitos escritores (principalmente os da escola romântica) se esforçavam em criar uma literatura brasileira patriótica que exaltava as belezas da terra e de sua gente; ele falava de uma sociedade que, no seu comportamento global, desenhava o local com todas as tintas (as belas e as nem tanto). Muitos críticos sustentaram que ele, como um “mulato que deu certo”, preferia ficar alienado às questões políticas e ao problema dos escravos e dos pobres. Ao contrário de sua imagem pacata, ele sempre foi combativo (era abolicionista) e seus textos – se lidos com atenção – revelam as conturbadas relações de classe e o que mais de obscuro havia nelas e nos seres humanos.

Machado também “pregou uma peça” em nós no livro Dom Casmurro. Por muitos anos (e muitos mesmo), todos acreditavam que Capitu realmente traiu Bentinho. Mas no final dos anos de 1950, a crítica norte-americana Helen Caldwell, publicou um estudo que virou tudo de cabeça para baixo. Quem narrava a história era Bentinho, então, como saber se a versão dele era de fato o que aconteceu? Os perfis psicológicos de Capitu e Bentinho foram tão bem feitos que, realmente, a história não era óbvia. Considera-se que Machado teve uma fase romântica e outra fase realista (Memórias Póstumas é considerado um dos fundadores do Realismo), mas na verdade ele extrapola qualquer rótulo.

Obras de Machado de Assis

Romances
Ressurreição – 1872
A mão e a luva – 1874
Helena – 1876
Iaiá Garcia – 1878
Memórias Póstumas de Brás Cubas – 1881
Quincas Borba – 1891
Dom Casmurro – 1899
Esaú e Jacó – 1904
Memorial de Aires – 1908 

Poesia 
Crisálidas
Falenas
Americanas
Ocidentais
Poesias completas

Contos
A Carteira
Miss Dollar
O Alienista
Noite de Almirante
O Homem Célebre
Conto da Escola
Uns Braços
A Cartomante
O EnfermeiroTrio em Lá Menor
Missa do Galo 

Teatro
Hoje avental, amanhã luva – 1860
Desencantos – 1861
O caminho da porta, 1863
Quase ministro – 1864
Os deuses de casaca – 1866
Tu, só tu, puro amor – 1880
Lição de botânica – 1906

Principais obras

Memórias Póstumas de Bras Cubas
Quincas Borba
Dom Casmurro
Esaú e Jacó
Ressurreição
A mão e a luva
Iaiá Garcia

Anúncios

Navegação de Post Único

4 opiniões sobre “Machado de Assis

  1. ler uma “biografia” sobre um dos autores mais importantes do passado e da atualidade é muito interessante! Ótimo trabalho.

  2. Matéria muito bem desenvolvida. Trata – se de um grande autor e que até hoje mostra que estava acima do seu tempo com suas obras. Grande curiosidades sobre o autor. Tá de parabens!

  3. Machado de Assis considerado como o maior nome da literatura brasileira,sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, e crítico literário.Suas obras apresentam hipocrisia social,imperfeição da humanidade,mostra que as causas nobres sempre ocultam interesses impuros,mulheres racionais à fortes, dominadores, sensuais, “dissimuladas”, ambíguas, astuciosas e principalmente adúlteras.

  4. Antônio Matheus da Silva Miranda em disse:

    Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro dia 21 de junho de 1839 e morreu no Rio de Janeiro dia 29 de setembro de 1908, ele foi um escritor brasileiro. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, e crítico literário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: