Revista Literária CNSA

Um olhar sobre da segunda metade da literatura do século XIX do alunos do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora

Intertextualidade em Cruz e Souza

Soraya Maria Farias Sicsu

Série: 2° ano

Turma: A

Músicas que dialogam com os poemas do autor

Adormecida

Ela dormia… Sobre o alvor do leito
Desenhava-se, esplêndida miragem,
Seu lindo corpo, escultural, perfeito.

Encrespado das rendas da roupagem,
Seu seio brandamente palpitava
Como a lagoa no tremor da aragem.

Solto, o cabelo se desenrolava
Sobre os lençóis, em plena rebeldia,
Como um revolto mar que os alagava.

Como no céu, quando desponta o dia,
A aurora raia, de um sorriso a aurora
Pelo seu meigo rosto se expandia.

E ela dormia descuidada… Fora,
O mar gemia um cântico plangente
Como uma alma perdida que erra e chora.

Um raio de luar, branco e tremente,
Pela janela mal cerrada veio
Entrando, surda, sorrateiramente…

Ia beijá-la em voluptuoso anseio;
Mas, ao vê-la dormindo entre as serenas
Ondas daquele sono sem receio,

Hesitou em beijar-lhe as mãos pequenas,
E humildemente, e como ajoelhando,
Beijou-lhe a fímbria do vestido apenas…

E o lindo quadro, estático, fitando,
Senti não sei que mística ternura
Por toda a alma se me derramando

Porque acima daquela formosura
Do corpo, os seus quinze anos virginais
Envolviam-lhe a angélica figura
Na sombra de umas asas ideais.

Seu Corpo (Roberto Carlos)

No seu corpo é que eu encontro

Depois do amor, o descanso e essa paz infinita

No seu corpo, minhas mãos se deslizam e se firmam

Numa curva mais bonita

No seu corpo o meu momento é mais perfeito

E eu sinto no seu peito

O meu coração bater

E é no meio desse abraço

É que eu me amasso, e me entrego pra você

E continua a viagem

No meio dessa paisagem, onde tudo me fascina

E me deixo ser levado por um caminho encantado

Que a natureza me ensina

E embora eu já conheça bem os seus caminhos,

Me envolvo e sou tragado pelos seus carinhos

E só me encontro se me perco no seu corpo

A Flor e a Fonte

“Deixa-me, fonte!”, Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.

“Deixa-me, deixa-me, fonte!”
Dizia a flor a chorar:
“Eu fui nascida no monte…
“Não me leves para o mar”.

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

“Ai, balanços do meu galho,
“Balanços do berço meu;
“Ai, claras gotas de orvalho
“Caídas do azul do céu!…”

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror,
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

“Adeus, sombra das ramadas,
“Cantigas do rouxinol;
“Ai, festa das madrugadas,
“Doçuras do pôr do sol;

“Carícia das brisas leves
“Que abrem rasgões de luar…
“Fonte, fonte, não me leves,
“Não me leves para o mar!…”

………

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor…

 

 

 

As Rosas não falam (Beth Carvalho)

Bate outra vez

Com esperanças, meu coração

Pois já vai terminando o verão, enfim

Volto ao jardim com a certeza que devo chorar

Pois bem sei que não queres voltar para mim

Queixo-me às rosas, mais que bobagem

As rosas não falam!

Simplesmente as rosas exalam seu perfume

Que roubaram de ti

Ah, devias vir para ver os meus olhos tristonhos

E quem sabe

Sonhava meus sonhos por fim…

Palavras ao Mar

“Mar, belo mar selvagem

Das nossas praias solitárias! Tigre

A que as brisas da terra o sono embalam,

A que o vento do largo eriça o pêlo!

Junto da espuma com que as praias bordas

Pelo marulho acalentado, à sombra das palmeiras que arfando se debruçam

Na beirada das ondas- a minha alma

Abriu-se para a vida como se abre

A flor da murta para o sol do estio.

Quando eu nasci, raiava

O claro mês das garças forasteiras;

Abril, sorrindo em flor pelos outeiros

Nadando em luz na oscilação das ondas,

Desenrolava a primavera de ouro;

E as leves garças, como folhas soltas

Num leve sopro de aura dispersadas,

Vinham do azul do céu turbilhonando

Pousar o voo à tona das espumas
Ninguém entende, embora,
Esse vago clamor, marulho ou versos,
Que sai da tua solidão nas praias,
Que sai da minha solidão na vida…
Que importa? Vibre no ar, acorde os ecos

E embale-nos a nós que o murmuramos…

Versos, marulho! amargos confidentes

Do mesmo sonho que sonhamos ambos!”

O Mar (Dorival Caymmi)

O mar…

Quando quebra na praia,

É bonito… é bonito…

O mar…

Pescador quando sai,

Nunca sabe se volta,

Nem sabe se fica…

Quanta gente perdeu

Seus maridos… seus filhos

Nas ondas do mar…

O mar…

Quando quebra na praia,

É bonito… é bonito…

Pedro vivia da pesca,

Saía no barco,

Seis horas da tarde,

Só vinha na hora

Do Sol raiá

Todos gostavam de Pedro

E, mais de que todos,

Rosinha de Chica,

A mais bonitinha e mais bem feitinha

De todas as mocinhas

Lá do arraiá…

Pedro saiu no seu barco,

Seis horas da tarde,

Passou toda a noite

E não veio na hora do sol raiá

Deram com o corpo de Pedro

Jogado na praia,

Roído de peixe,

Sem barco, sem nada

Num canto bem longe

Lá do arraiá

Pobre Rosinha de Chica,

Que era bonita,

Agora parece que endoideceu,

Vive na beira da praia,

Olhando pras ondas,

Andando, rondando,

Dizendo baixinho,

Morreu… morreu… oh!

Saudade

Belos amores perdidos,
Muito fiz eu com perder-vos;
Deixar-vos, sim: esquecer-vos
Fora demais, não o fiz.

Tudo se arranca do seio,
— Amor, desejo, esperança…
Só não se arranca a lembrança
De quando se foi feliz.

Roseira de tanta rosa,
Roseira de tanto espinho,
Que eu deixei pelo caminho,
Aberta em flor, e parti:

Por me não perder, perdi-te:
Mas mal posso assegurar-me,
— Com te perder e ganhar-me,
Se ganhei, ou se perdi…

Chega de Saudade (de Tom Jobim)

Vai, minha tristeza, e diz a ele

Que sem ele não pode ser

Diz-lhe numa prece que ele regresse

Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade, a realidade é que

Sem ele não há paz, não há beleza

É só tristeza, e a melancolia

Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Mas se ele voltar, se ele voltar

Que coisa linda, que coisa louca

Pois há menos peixinhos a nadar no mar

Do que os beijinhos que darei na sua boca

Dentro dos meus braços os abraços

Hão de ser milhões de abraços

Apertados assim, colados assim, calado assim

Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

Que é pra acabar com esse negócio

De viver longe de mim

Vamos deixar esse negócio

De viver longe de mim

Serenata

Pela vasta noite tranquila

Pairam, longe, as estrelas.

Eu sonho… O teu olhar também cintila

Assim, tão longe como elas.

Pela vasta noite povoada

De rumores e arquejos

Eu sonho… É tua voz, entrecortada.

De suspiros e de beijos.

Pela vasta noite sem termo,

Que deserto sombrio!

Eu sonho… Inda é mais triste, inda é mais ermo.

O nosso leito vazio.

Pela vasta noite que finda

Sobe o dia risonho…

E eu cerro os olhos para ver-te ainda,

ainda e sempre, em meu sonho.

A noite do meu Bem (de Dolores Duran)

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver

E a primeira estrela que vier

Para enfeitar a noite do meu bem

Hoje, eu quero paz de criança dormindo

E abandono de flores se abrindo

Para enfeitar a noite do meu bem

Ah! Eu quero o amor, o amor mais profundo

Eu quero toda beleza do mundo

Para enfeitar a noite do meu bem

Ah! Como esse bem demorou a chegar

Eu já nem sei se terei no olhar

Toda a pureza que quero lhe dar

INTERPRETAÇÃO: POEMA – MÚSICA

Poema: ‘’Adormecida’’- Música: Seu Corpo de Roberto Carlos

O poema se assemelha com os versos da música porque descreve o corpo de uma mulher, e a paixão de quem escreveu tanto o poema quanto a música pelo encanto feminino. E, ambos demonstram sensibilidade em perceber a perfeição e a beleza de sua musa inspiradora.

Poema: ‘’A flor e a fonte’’- Música: As rosas não falam de Beth Carvalho

Ambos citam as flores como forma de demonstrar sua aflição pelo amor perdido, sendo que no poema o autor está em devaneios e na música o autor está sem respostas e triste por não obter apoio para superar uma perda, isto é, ele buscou consolo em vão.

Poema: ‘’Palavras ao mar’’- Música: O mar de Dorival Caymmi

No poema palavras ao mar, e na música O mar, existem semelhanças porque demonstram melancolia e sofreguidão e ao mesmo tempo deslumbramento com relação ao mar, que no caso era a grande fissura de Vicente de Carvalho, pois no mar ele encontrava sua alma.

Poema: ‘’Saudade’’- Música: Chega de saudade de Tom Jobim

Descontente, sem vida, atormentado, estas são as características encontradas na poesia e na música, embora ao final os autores percebam que não vale a pena ficar se lastimando por um fato inesquecível, mas que são capazes de superar.

Poema: ‘’Serenata’’- Música: A noite do meu bem de Dolores Duran

O poema e a música tem a pretensão do sujeito (mulher) estar onipresente para que ela não possa ser esquecida pelo seu amado, que em tudo percebe a presença de seu amor. No caso, são os sentidos figurados (a noite, as estrelas, as flores, a paz de criança dormindo) que a mulher está em voga, isto é, seu desejo é estar a mostra, aparecer.

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12 opiniões sobre “Intertextualidade em Cruz e Souza

  1. Muito legal ver que os poemas de cruz e souza podem ser relacionados com clássicos da musica brasileira que tocam até hoje como o “Rei roberto carlos” e tom jobim .

  2. Para quem gosta de música e poesia este Ensaio é uma interessante ferramenta, pois relaciona a música popular brasileira ao contexto histórico, características literárias, vida e obra de Vicente de Carvalho. Tal relação permite que o entendimento de ambos os textos.

  3. João Claudio Nunes & Nunes em disse:

    Texto com divulgação muito detalhada sobre os poemas de Cruz e Sousa,comparação com musicas de MPB muito populares e que ao comparar completa singularmente como uma resposta a alguns dos poemas.

  4. Gostei bastante de fazer pesquisas e descobrir estes poemas do autor Vicente de Carvalho,foi um trabalho interessante e inovador de se fazer.E acima de tudo,despertou-me um grande interesse por Vicente.

  5. Ana Flávia em disse:

    Gostei muito desse tópico, pude obter muitas coisas boas, é uma boa fonte de pesquisas. E mostra o quanto a literatura brasileira é rica e cheia de variedades. Muito boa essa iniciativa, e o trabalho.

  6. Escolheu muito bem como ornamentar a materia. Mostrou quase tudo sobre o autor, desenvolvendo assim um otimo trabalho, bastante esclarecedor e pode ajudar muitos trabalhos de pesquisa.

  7. anne Benarrós em disse:

    gostei muito da comparação da musica com o poemas

  8. Victoria Paiva em disse:

    Foi muito essas semelhanças que fizeram do poema com a musica, são muito parecidos claro se você presta atenção e fazer bem a analise do poema com a musica ‘’Adormecida’’- Música: Seu Corpo de Roberto Carlos, ‘’A flor e a fonte’’- Música: As rosas não falam de Beth Carvalho,‘’Serenata’’- Música: A noite do meu bem de Dolores Duran

  9. Cruz e souza foi um poeta muito perseguido na história da literatura brasileira. Sem Cruz e Souza o modernismo não seria possível no Brasil!

  10. João da Cruz e Souza, estudou no Ateneu Provincial Catarinense, de 1871 a 1875, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais. Aos oito anos, já recitava versos seus, em homenagem a seu protetor. Com tudo isso, com essas obras, e tudo mais, consagrou-se como o fundador do Simbolismo brasileiro, por combinar o parnasianismo, o pessimismo, o materialismo à musicalidade simbolista, sob as influências de Baudelaire e Antero de Quental, de quem foi grande leitor.

  11. A intertextualidade dos poemas e músicas em Cruz e Sousa é muito interessante, por que podemos analisar melhor o conteúdo dos poemas, comparando com as músicas se torna mais interessante analisar a temática.

  12. Uma característica interessante de Cruz e Sousa são os seus poemas marcados pela musicalidade, pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca.

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