Revista Literária CNSA

Um olhar sobre da segunda metade da literatura do século XIX do alunos do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora

As imagens nos poemas de Cruz e Souza

Maria Gabriela Freitas

Série: 2° ano

Turma: “A”

 

Figuras de linguagem são recursos usados no intuito de alcançar uma maior expressividade no texto, feitas através da linguagem de maneira diferente da usual, seja no que diz respeito ao sentido, à posição ou à combinação (SARMENTO, 2005). Subdividem-se em figuras de som (aliteração, assonância, paronomásia); figuras de construção (elipse, zeugma, polissíndeto, silepse, anacoluto, pleonasmo, anáfora); figuras de pensamento (antítese, ironia, eufemismo, hipérbole, prosopopeia) e figuras de palavras (metáfora, metonímia, catacrese, antonomásia, sinestesia).

As figuras de linguagem revelam muito da sensibilidade de quem as produz, traduzindo particularidades estilísticas do autor. A palavra empregada em sentido figurado, não denotativo, passa a pertencer a outro campo de significação, mais amplo e criativo.

Segundo Ferreira (apud FERRAZ, 2005), a importância em reconhecer figuras de linguagem está no fato de que tal conhecimento, além de nos auxiliar na compreensão dos textos literários, deixa-nos mais sensíveis à beleza da linguagem e ao significado simbólico das palavras e dos textos.

Figuras de Linguagem mais utilizadas Por Cruz e Sousa

 

 

 Dentre os mecanismos linguísticos mais comumente utilizados por Cruz e Sousa em seus poemas, destacam-se a metáfora, a sinestesia e a aliteração.

A Metáfora é o emprego de uma palavra com o significado de outra em vista de uma relação de semelhanças entre ambas. É uma comparação subentendida. No contexto de Cruz e Sousa é aplicada em seus poemas com o intuito de transformar simples versos em joias poéticas e auxiliar dessa forma o entendimento das características Simbolistas do autor.

 

SAUDAÇÃO

 

Como esta luz é serena,
Como esta luz é sincera;
Como eu vejo a primavera
Num lápis e numa pena.

Que prismas de luz ardente,
Que prismas de luz suave;
Como eu sinto um canto de ave
Em cada boca inocente.

Sim! Que o estudo é como a aurora
Que nos entra pela casa,
Num vivo fulgor de brasa,
Vibrante, alegre, sonora.

No poema acima a metáfora encontra-se presente na última estrofe como metáfora simples: “Sim! Que o estudo é como a aurora/ Que nos entra pela casa…”. Onde se observa claramente a relação que o autor estabelece entre estudo e aurora retratando assim a ideia de começo, alvorecer.

Já no poema “Acrobata da Dor”, a relação encontra-se estabelecida de modo subentendido ao longo de todo o texto sendo revelada somente no final. Porém, há certas características que permitem ao leitor associar e deduzir a que realmente se refere: o coração.

Tal dedução é feita através de palavras-chave e expressões como: sanguinolenta, convulsionado, retesa os músculos e sangue estuoso e quente. Podendo ser encontrada também, através do próprio título, já que o coração em sentido conotativo é o responsável por sentir as emoções. (POTERIKO, 2010)

ACROBATA DA DOR

 

“Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta

 

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos e convulsionado
Salta, gavroche, salta, clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta…

 

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d`aço…

 

E embora caias sobre o chão, fremente
Afogado em teu sangue estuoso e quente
Ri,! Coração, tristíssimo palhaço.”

 

Observa-se frequentemente, nos poemas de Cruz e sousa, a figura de linguagem de palavras, sinestesia, que consiste na mistura de sensações permitidas pelos órgãos dos sentidos, produzindo forte sugestões (SARMENTO, 2005). Isso pode ser constatado nos versos de Siderações:


SIDERAÇÕES

Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo…

Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos. Cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo…

Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal. límpido e leve.
Ondas nevoentas de Visões levanta…

E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da eternidade que nos Astros canta…

Esse soneto representa bem o caráter vago da poesia de Cruz e Sousa, que procura construir através do cruzamento de sensações imagens sugestivas do céu. O caráter abstrato é obtido pelo emprego da visão, através das cores e luminosidade: “Galgando azuis e siderais noivados/ De nuvens brancas a amplidão vestindo…”; audição, através de sons de instrumentos e cânticos: “Num cortejo de cânticos alados/ Os arcanjos. Cítaras ferindo…”; e do olfato pelo aroma do incenso: “Dos etéreos turíbulos de neve/ Claro incenso aromal. límpido e leve…”

Já no poema “Cristais” a característica marcante é a representação dos sentidos e as impressões marcadas por eles. Tal análise pode ser observada na relação principal estabelecida entre os sons, cores e os cheiros, no caso, uma voz que para o eu lírico, interligava-se aos mais belos perfumes e às mais delicadas cores, representando a luz, a pureza e a transcendência.

CRISTAIS Mais claro e fino do que as finas prataso som da tua voz deliciava…Na dolência velada das sonatascomo um perfume a tudo perfumava. Era um som feito luz, eram volatasem lânguida espiral que iluminava,brancas sonoridades de cascatas…Tanta harmonia melancolizava. Filtros sutis de melodias, de ondasde cantos volutuosos como rondasde silfos leves, sensuais, lascivos… Como que anseios invisíveis, mudos,da brancura das sedas e veludos,das virgindades, dos pudores vivos.Finalmente, porém não menos importante, encontra-se o uso de aliterações, onde ocorre a repetição de um mesmo fonema para realçar determinado som ou dar ritmo aos versos (SARMENTO, 2005). 

VIOLÕES QUE CHORAM

 

“[…]

E sons soturnos, suspiradas magoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.

 

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,

Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

 

Tudo nas cordas dos violões ecoa
E vibra e se contorce no ar, convulso…
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso.

 

Que esses violões nevoentos e tristonhos
São ilhas de degredo atroz, funéreo,
Para onde vão, fatigadas do sonho
Almas que se abismaram no mistério….”

Este mecanismo é observado principalmente nos versos “Vozes veladas, veludosas vozes,/ Volúpias dos violões, vozes veladas,/ Vagam nos velhos vórtices velozes/ Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.” É, devido a este recurso, que os poemas de Cruz e Sousa se assemelham tanto, dando a impressão de que são compassos de uma mesma música que vai conduzindo o leitor pelo universo mais íntimo do artista. Mesmo o vocabulário, tantas vezes repetido, denota que o acorde de um verso, de um poema, parece continuar em outro.

Analisando os poemas do poeta Cruz e Sousa percebeu-se que são todos de grande repercussão no meio literário brasileiro em virtude de sua beleza e das profundas simbologias utilizadas pelo poeta em sua composição.

Para Romero (apud POTERIKO, 2010): “Outra qualidade da arte de Cruz e Souza é o poder evocativo de muitas de suas poesias. Ele não descreve, nem narra. Em frases vagas, indeterminadas, aparentemente desalinhadas, sabe, não sabemos por que interessante e curiosa magia, atirar o pensamento do leitor nos longes indefinidos, sugestionando-lhe a imaginativa, fazendo-o perder-se nos mundos desconhecidos, sempre melhores do que aquele em que vivemos…”.

 

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6 opiniões sobre “As imagens nos poemas de Cruz e Souza

  1. Cruz e Souza é o melhor exemplo de Figuras de Linguagem no Simbolismo. Consegui aprender com clareza este assunto. Parabéns Maria!

  2. Parabéns,gostei muito do seu trabalho,me fez entender como que Cruz e Souza usa as figuras de linguagem presente na língua portuguesa de forma interessante,me fez compreender que utiliza uma linguagem rebuscada.

  3. Maria Gabriela em disse:

    Nunca pensei que poderia criar um Ensaio Literário. Uma atividade não muito simples, que exigiu muita pesquisa e estudo, pois não envolve somente a parte literária, mas também a parte linguística. Posso dizer que é uma experiência que levarei para toda a vida.

  4. Tayline Monteiro em disse:

    Cruz e sousa, com características e influencias simbolistas, em seus poemas transcreve sempre os detalhes parecidos com o espiritualismo e satanismo, com a presença da musicalidade, indiviualismo, e sua principal marca, a obsessao pela cor branca, sempre presente em seus versos

  5. Nos poemas de Cruz e Sousa é certo que encontram-se inúmeras referências à cor branca, assim como à transparência, à translucidez, à nebulosidade e aos brilhos, e a muitas outras cores, todas sempre presentes em seus versos.

  6. Os poemas de Cruz e Souza são marcados pela musicalidade, pelo sensualismo e individualismo, além de uma forte obsessão pela cor branca. Muitos dizem que sua obsessão pela cor vem do preconceito que sofria por ser negro.

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