Revista Literária CNSA

Um olhar sobre da segunda metade da literatura do século XIX do alunos do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora

Arquivo para a categoria “Leitura de poemas”

Leitura de um Poema de Vicente de Carvalho

2. Análise do Poema de Vicente de Carvalho

“‘Deixa-me, fonte! ’ Dizia

A flor, tonta de terror.

E a fonte, sonora e fria

Cantava, levando a flor.

Deixa-me, deixa-me, fonte!

Dizia a flor a chorar:

Eu fui nascida no monte…

Não me leves para o mar.

E a fonte, rápida e fria,

Com um sussurro zombador,

Por sobre a areia corria,

Corria levando a flor.

Ai, balanços do meu galho,

Balanços do berço meu;

Ai, claras gotas de orvalho

Caídas do azul do céu!…

Chorava a flor, e gemia,

Branca, branca de terror.

E a fonte, sonora e fria,

Rolava, levando a flor.

Adeus, sombra das ramadas,

Cantigas do rouxinol;

Ai, festa das madrugadas,

Doçuras do pôr-do-sol;

Carícias das brisas leves

Que abrem rasgões de luar…

Fonte, fonte, não me leves,

Não me leves para o mar!”

As correntezas da vida

E os restos do meu amor

Resvalam numa descida

Como a da fonte e da flor”

(Vicente de Carvalho)

“O Parnasianismo foi uma escola literária que surgiu em meados do século XIX na França, se desenvolveu na Europa chegando ao Brasil na segunda metade do século XIX e teve força até o movimento modernista. Essa corrente literária foi uma forte oposição ao Romantismo, pois repudiava a subjetividade, a liberdade da rima, enfim, era contra as características do Romantismo representando, portanto, a valorização da ciência e do positivismo.

Os principais representantes do parnasianismo brasileiro foram: Raimundo Correia, Álvares de Azevedo e Vicente de Carvalho”.

Uma característica do Parnasianismo é a quebra da dependência do verso. Como podemos perceber a partir da 1ª estrofe como mostra o exemplo a seguir:

“Deixa-me, fonte! Dizia

A flor, tonta de terror.

E a fonte, sonora e fria,

Cantava, levando a flor.”

Esse recurso é utilizado para encontrar a rima, fundamental para os poetas parnasianos.

No poema encontramos rimas ricas. Como por exemplo: Gemia – Fria, Chorar – mar, Fria – Corria.

Rimas ricas caracterizam-se por ocorrerem em diferentes classes gramaticais. Por exemplo: Substantivo – Adjetivo, Verbo – Adjetivo.

Percebemos que no poema não existe uma singularidade do autor, ou seja, ou não existe uma subjetividade embora transmita tristeza, porém, o autor, momento algum, demonstra sentimentos, apenas acontecimentos. Eis então, outra característica do parnasianismo: Poesia descritiva e ausência de emoção. No mais, podemos notar clareza e sentido claro na poesia.

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Leitura de As Pombas de Raimundo Correia

AS POMBAS

Aluna: Giulia Antonaccio

Série: 2° ano A

Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada…

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada…

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais…

CARACTERÍSTICAS DE TEMAS:

  • Foco principal – natureza
  • Força lírica – “Raia sanguínea e fresca a madrugada”
  • Descrição objetiva – fenômeno natural
  • Arte pela arte – poesia composta como fim em si mesma

CARACTERÍSTICAS ESTÉTICAS:

  • Culto à forma ( rima rica, com palavras de classe gramaticais diferentes. Exemplo

1º estrofe: Despertada à adjetivo

Dezenas à numeral

Apenasà preposição

Madrugadaà substantivo

  • Correção gramatical, uso de palavras raras, inversão frasal. Exemplos:

Palavras raras:

Nortadaà vento frio

Ruflandoà agitando as asas para voar

Céleresà velozes

Inversão frasal:

“Mas aos pombais as pombas voltam…”

“Mas as pombas voltam aos pombais…”

“E eles (os sonhos) aos corações não voltam mais…”

“E eles não voltam mais aos corações…”

  • Predileção pelo soneto, abandono dos versos brancos:

Soneto – 4 estrofes: 2 quartetos – 4 versos, 2 tercetos – 3 versos ( Há rima).

Versos decassílabos – com 10 sílabas poéticas

  • Repúdio ao hiato, encontro de duas ou mais vogais no fim de uma frase e início de outra. Exemplo:

Vol / tam / to  / das / em / ban / d O E Em / re / vo / a / da à 8º verso

  • Sonetos terminados com “ chave de ouro”, verso com um final bem escrito, procurando condensar uma ideia e arrematando o poema com um belo efeito. Exemplo:

“ E eles aos corações não voltam mais…” à último verso

INTERPRETAÇÃO DO POEMA

Raimundo Corrêa escreve esse poema e tem como base elementos ligados, a natureza, a juventude, e até mesmo a própria liberdade dentre outros. Ao falar sobre essa passagem: “ No azul da adolescência as asas soltam,

Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,

E eles aos corações não voltam mais…”

O eu-lírico faz a alusão aos sonhos dos adolescentes, que também voam, mas ao contrário das pombas que retornam todos os dias aos pombais, os sonhos não voltam, quando o jovem cresce e vai descobrindo as realidades da vida, e por conta disso muitas vezes não se há mais nem se quer tempo de sonhar ou concretizar os sonhos, por isso ele diz “ aos corações não voltam mais”.

Na primeira estrofe o autor se refere do auge da vida adolescente, onde se há tempo para os sonhos. Na segunda já está se referindo à uma idade mais madura. E nos tercetos o poeta deixa claro o passar dos anos.Entende-seno poema que o pombal são as pessoas,adolescentes em especial e as pombas os sonhos destes jovens. O coração no caso representa as coisas boas, as paixões, os desejos, os sonhos, e o autor demonstra que isso fica para trás. A movimentação é constante, percebe-se que as pombas vão e vem, e isto indica que existem vários sentimentos, pois a juventude é uma época de descobertas novas e muito senso para as novas escolhas.

Os poemas de Raimundo Correia podem confundir um pouco com os poemas simbolistas, por algumas características parecem as mesmas mas não são, por exemplo como os parnasianos não apresentam religiosidade a figura da pomba apesar de ser considerada um animal santo como símbolo da paz não está relacionada nesse contexto. Os parnasianos têm características próprias como a perfeição em seus versos, tendo gosto pelo soneto, versos decassílabos e rimas ricas, uso de palavras rebuscadas: “E à tarde, quando a rígida nortada…”  e principalmente o modo como faziam a arte pela arte.

Diálogo entre os poemas de Raimundo Correia e Alcides Werk

Diálogo dos poemas

 

Anoitecer – Raimundo Correia

 

Esbraseia o Ocidente na agonia

O sol… Aves em bandos destacados,

Por céus de ouro e púrpura raiados,

Fogem… Fecha-se a pálpebra do dia…

 

Delineiam-se além da serranja

Os vértices de chamas aureolados,

E em tudo, em torno, esbatem derramados

Uns tons suaves de melancolia.

 

Um mudo de vapores no ar flutua…

Como uma informe nódoa avulta e cresce

A sombra à proporção que a luz recua.

 

A natureza apática esmaece…

Pouco a pouco, entre as árvores, a lua

Surge trêmula, trêmula…. Anoitece.

 

Da Noite do Rio –  Alcides Werk

Nesta noite sem medida

eu todo banhado em sombras

fugi de casa, fugi

para o branco desta praia,

como se a aurora que busco

neste rio se afogou.

 

Preciso acordar o rio

que está cansado de viagens

para ver se me alivio

da morte que trago em mim

com falas de cobras-grandes

e de mortos pescadores

que fazem parte do rio

e estão assim como estou.

 

No céu repleto de nuvens

há nuvens cheias de chuva:

por que não chove? Quisera

molhar-me dentro da noite,

tremer de fome e de frio

por remissão de meus males

deixar meu corpo vazio

guardando o castelo inútil

e partir buscando a aurora

para que venha depressa

banhar as águas do rio

e minha face marcada

dos ventos com que lutei.

Comparação do que os Poetas e os poemas têm em comum

 

Sabemos que Raimundo Correia pertencia à escola literária Parnasianismo. E que como todo poeta parnasiano, ele exaltava a natureza, as formas estruturais na composição do poema, e as métricas rígidas. E ainda tinha o pessimismo marcado por desilusão dos sonhos que não podiam ser realizados.  A comparação será feita com um dos poemas de Alcides Werk, um poeta de identidade amazônica. Os poemas que serão comparados são:

  • ·         Anoitecer – Raimundo Correia
  • ·         Da noite do rio – Alcides Werk

 

Ambos tratam-se da natureza .O Anoitecer de Raimundo Correia, este poema tem como características do parnasianismo a perfeição formal, o uso de elementos da natureza, um rico vocabulário. Ele revela mais uma vez a sua fixação por fenômenos da natureza e pelo fluir do tempo, como na parte abaixo:

“Esbraseia o Ocidente na agonia

O sol…Aves em bandos destacados,

Por céus de oiro e de púrpura raiados,

Fogem… Fecha-se a pálpebra do dia . . .”

E o poema Da noite do rio de Alcides Werk, tambem trata-se da natureza . No caso o poeta tenta buscar uam maneira de fugir de todos os problemas que aconteçem .

Alcides tinha uma coisa em comum com Raimundo Correia também possuía excelente domínio de gramática e com muito gosto se dedicava ao trabalho de edição de livros, uma de suas mais importantes atividades.

Leitura do poema As pombas de Raimundo Correia

Por Lisandra S. Gonzalez

“Vai-se a primeira pomba despertada … Vai-se outra mais … mais outra … enfim dezenas De pombas vão-se dos pombais, apenas Raia sanguínea e fresca a madrugada … E à tarde, quando a rígida nortada Sopra, aos pombais de novo elas, serenas, Ruflando as asas, sacudindo as penas, Voltam todas em bando e em revoada… Também dos corações onde abotoam, Os sonhos, um por um, céleres voam, Como voam as pombas dos pombais; No azul da adolescência as asas soltam, Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam, E eles aos corações não voltam mais…”

Com o definido conceito ‘arte pela arte’ Os poemas de Raimundo correia giram em torno da perfeição dos objetos, chegando a ser uma  poesia pessimista e até sombria. É um poema que impressiona pela sua estrutura métrica e sonora, além de versos perfeitos. Esse poema tem como mensagem retratar um sonho, relacionando o mesmo com uma Pomba.

A relação da natureza com o ser humano,  mostra que todos os dias as pombas sempre retornam aos pombais, diferente dos sonhos humanos, o qual se perdem com o passar do tempo. Sonhos esses que um dia foram livres e chegamos a acreditar que irão se tornar realidade, porem , por algo que aconteça, uma desmotivação, ou até um simples comentários esses sonhos morrem em nós e são totalmente esquecidos e assim, voando de nossos corações. Com essa analogia a uma pomba deixa o ser humano encantado e pensativo sobre os sonhos que foram perdidos ou até mesmo roubados de si.

 

A estrutura do poema assim como sua musicalidade toca o leitor, deixando o mesmo com um semblante de encanto e perfeição do poema . Rico em descrições e até mesmo mostrando as simples características da menor coisa que seja, através do estilo literário parnasianístico, vemos que a beleza pode estar em todos os lugares, e em tudo, esse estilo nos mostra a arte, apresentando coisas simples com uma nova perspectiva artística.

 

Nenhum outro conseguiu perfeição da forma poética de Raimundo, nem a delicadeza de sua inspiração, nem a variedade de seus temas. Fugiu á monotonia amorosa de Bilac, á insensibilidade de Alberto de Oliveira, tocando todos os assuntos, vibrando todos os sentimentos humanos, sempre delicado e profundo .

O Solitário – Augusto dos Anjos

Por: Laís Veras

SOLITÁRIO

Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos contorta…
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
— Velho caixão a carregar destroços —

Levando apenas na tumba carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

Neste poema o eu – lírico sofre por um amor não correspondido em que fica à espera da pessoa amada a qual não percebe nem o seu amor e nem a sua existência. Na última estrofe fica clara uma das suas principais características que é o apego à morte quando o eu – lírico diz que esperou a amada sem obter respostas e que saiu da porta em carcaça dentro de um caixão e apenas em pele e osso. 

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